— por uma mãe em (re)construção 🌿
Eu achava que, depois de todo o caos que vivi no meu primeiro maternar, a coragem para ter um segundo filho nunca viria. Mas veio — tímida, trêmula, escondida atrás de um desejo antigo: o de não deixar meu menino caminhar sozinho pelo mundo.
Mesmo com medo.
Mesmo com dúvidas.
Mesmo carregando ainda algumas cicatrizes abertas.
Eu temia não amar. Temia não caber. Temia não ser suficiente para dois.
Mas seguimos com o plano, esse que a gente cria achando que tem algum controle — e que a maternidade, com sua ironia doce e dura, faz questão de desmentir.
A gravidez aconteceu.
E no meu coração eu jurava que viria uma menina.
Mas a vida, essa que adora virar a página antes da gente terminar a frase, me trouxe outro menino — tão lindo quanto inesperado.
Ele chegou do jeito que eu sonhei e, ao mesmo tempo, totalmente diferente do que eu imaginava.
Não veio de parto normal — mais uma prova de que os planos da gente são, na verdade, rabiscos a lápis.
Mas veio com a leveza que eu tanto precisava:
a amamentação fluiu, o corpo não sangrou como antes, ele não chorava por qualquer coisa.
Era calmo. Um respiro. Uma segunda chance.
E foi ali, naquele comecinho sereno, que eu pude olhar de frente para as dores que vivi com o primeiro filho.
Foi ali que descobri que o amor não divide — expande.
Que amar dois é como abrir janelas numa casa que já era iluminada.
Cabe mais luz. Cabe mais vento. Cabe mais vida.
Mesmo com duas crianças pequenas, eu gostava da minha rotina.
Era cansativa, óbvio — mas era leve.
O meu emocional, tão machucado no passado, enfim respirava em paz.
Decidi parar de trabalhar.
Não queria sobrecarregar minha mãe de novo, e havia em mim um desejo enorme de estar ali, inteira, para aqueles dois meninos que ainda aprendiam a caminhar pelo próprio corpo.
No começo foi perfeito — eu me sentia privilegiada por assistir, sem pressa, o crescimento deles.
Cada sorriso, cada palavra, cada tropeço.
Minha rede de apoio ajudava muito.
Íamos ao parque, a vida parecia continuar.
Enquanto minha amiga vigiava os maiores, eu seguia atrás do pequeno — primeiro engatinhando, depois andando, depois correndo para longe de mim rindo, como se a liberdade coubesse inteira naquele corpinho.
Eu idealizei muito a relação dos meus filhos.
Imaginava cumplicidade, parceria, aquela cena de comercial em que irmãos se abraçam sem precisar pedir.
Mas a verdade é que o mais velho sentiu.
Sentiu fundo.
Sentiu como quem perde território, colo, tempo, voz.
Ele havia reinado sozinho por anos.
E, de repente, o trono precisava ser dividido — e ninguém gosta de dividir aquilo que nunca imaginou que poderia perder.
Lidar com isso, sim, era exaustivo.
Era como tentar equilibrar dois mundos enquanto o meu próprio ainda se reconstruía.
Era cansativo, desgastante, emocionalmente desafiador.
Mas, olhando hoje para tudo isso, percebo que foi ali que eu também renasci.
Porque junto do segundo filho nasceu outra versão de mim — uma mãe que entendia mais, acolhia mais, sentia mais, e que, por estar em (re)construção, finalmente enxergava que a maternidade não é sobre ter todas as respostas…
É sobre aprender a respirar no caos
e encontrar, mesmo na exaustão, um pedacinho de colo para continuar.
