Desde que me entendo por gente, sinto vontade de cuidar.
O instinto materno, esse que dizem que nasce depois, em mim sempre viveu.
Eu era criança e já me pegava cuidando das menores do que eu.
E, de certa forma, continuo assim até hoje.
Cresci, virei adolescente, adulta… e em todos os meus sonhos, ser mãe estava lá, firme, esperando a hora de existir.
Na minha cabeça, eu já tinha desenhado a família perfeita:
primeiro viria um menino e depois, uma menina.
Parecia simples. Parecia certo.
Anos se passaram e conheci o homem que hoje é meu marido, meu parceiro e o pai dos meus filhos.
Mas logo descobri que, por mais que a gente planeje, a vida tem caminhos próprios.
E que está tudo bem ter um plano — o que não está é acreditar que temos controle absoluto sobre o resultado.
Namoramos por alguns anos, ficamos noivos por alguns meses, casamos.
Três anos depois, a notícia que iluminou tudo: eu estava grávida do nosso primeiro filho.
A gestação foi tranquila, o quartinho ganhou vida, o enxoval foi preparado com carinho.
Parecia um lindo sonho tomando forma.
Eu imaginava meu parto normal, sonhava com uma amamentação leve, intuitiva —
afinal, eu pensava: “fui feita para isso”.
Engravidei, gerei, pari… o que poderia dar errado?
Mas a realidade veio diferente.
A bolsa rompeu com 39 semanas e alguns dias… e meu tão desejado parto normal não aconteceu.
A amamentação, aquela coisa tão “natural”, também não.
Meus seios doíam, rachavam, sangravam.
Ele chorava — e como chorava.
E eu chorava junto.
E no meio do caos, ainda vinham as interferências:
“É cólica.”
“É fome.”
“Dá mamadeira.”
“Seu leite não é forte.”
Mãe de primeira viagem, insegura, exausta… eu vi meu mundo desmoronar.
Nada saiu como planejado.
Meu sonho não era assim.
E ninguém me contou que poderia ser.
Eu sentia uma dor profunda, um vazio, uma tristeza que me esmagava.
E ao mesmo tempo negava tudo isso.
Me perguntava:
“Como posso estar sentindo isso se tudo o que eu sempre quis era ser mãe?”
Mas eu não tinha coragem de dizer em voz alta.
Então a dor ficou. E ficou. Por muito tempo.
Meu puerpério foi pesado.
E minha cura… demorou a chegar.
Eu tinha um bebê que demandava além do esperado, e emocionalmente eu não estava disponível.
Tudo parecia mais difícil do que deveria ser.
Quando ele era bebê, chorava demais.
Quando cresceu um pouco, ir a um restaurante era impossível.
Nunca comíamos juntos: enquanto um tentava comer, o outro cuidava dele.
Até que desistimos.
Festas, encontros, aniversários… eu estava presente, mas nunca realmente lá.
Sempre correndo atrás dele, sempre cansada, sempre vulnerável.
Me culpava por tudo. Chorava por tudo.
Quando ele fez seis meses, voltei ao trabalho — aliviada por saber que ele ficaria com minha mãe.
Tive apoio, tive sorte.
Ela fez a introdução alimentar, cuidou com carinho, me deu chão.
Meu trabalho, por não exigir tanto, me permitiu acompanhar de perto.
E isso me salvou um pouco.
Este é apenas um breve capítulo da minha história.
Logo volto para continuar — porque entre o caos e o colo, existe muito mais do que eu imaginava.